Subsolo – Hi Tek Soul

Há decadas sou escravo de uma neofilia severa, associada quase que exclusivamente à música, que me obriga a mergulhar em toda a sorte de porão atrás de novidades. O vício começou a se desenvolver no final dos anos 80, quando o punk de rua foi oficiamente engolido pela indústria musical e regurgitado como a nova disco music. Tudo soava novo, menos a ganância embutida em rótulos imediatistas como new wave, new romantic, new psychedelic. Nenhum desses estilos era tão essencialmente divisor de águas assim, mas mesmo sendo jovem demais para entender as referências recicladas, jamais me sentia entediado! As lojas especializadas renovavam a cada semana o estoque de vinis importados ou fitinhas cassette de shows em porões ingleses, de onde tava saindo tudo de mais interessante.

Foi um período intenso pra quem amava novidades, mas as surpresas e os choques que gritavam “O FUTURO É AGORA!!!” na nossa cara, foram se tornando menos frequentes. Não fui eu que me acostumei, mas a maioria dos artistas que me atraíam para o underground flutuava mais perto da superfície mainstream a cada lançamento! Por sorte, o vício por novidades voltou a ser saciado quando mudei o foco do rock de palco pra música de pista – o que resgatou a sensação de estar vivendo no futuro, de maneira bem mais intensa até, já que a tecnologia cara para se fazer música eletrônica dos anos 80 tava se tornando bem mais acessível nos 90. Então tínhamos mais um universo de estilos a explorar, incontáveis subgêneros e uma internet cada vez mais popular servindo de base para divulgações de maior alcance.

moogz

A música eletrônica tem uma vantagem para soar sempre nova – a tecnologia evolui muito rápido, seus técnicos e programadores trabalham em parceria com os produtores e e DJs – os timbres e presets sob encomenda podem definir novos estilos. Mas depois de três décadas era inevitável que essa indústria investisse em outros mercados. O Pop se tornou quase puramente eletrônico e até mesmo o Hip Hop e o R&B em menor escala, passaram a soar cada vez menos orgânicos. Agora que esses timbres e ritmos se tornaram lugar comum, a sensação de novidade depende só da criatividade. E essa foi a minha primeira crise de abstinência real na minha neofilia musical! Não tinha mais a fartura inacompanhável de som novo a cada semana. Decretei que vivemos época de vacas magras pro underground! Ou talvez… eu devesse sair mais e procurar!

Pois naquela última quinta feira de Janeiro eu nem tava procurando! Só apareci no fim de tarde no Trackers para resolver umas questões pessoais. Encontro um happy hour com a trilha mais empolgante que já ouvi numa quinta feira desde que batia ponto na festa Vibe do Lov.e club. Na portaria já senti a vibração subsonica de linhas de baixo garage e quanto mais rápido subia as escadas, melhor se definia uma batida mais tech do que house que me soou como uma novidade deliciosa. Corri pra pista e tava o inglês Moogz, DJ da Sub FM, que depois descobri ser o capitão do selo Clueplant, de poucos releases, mas muito conceitual, com artistas da China, EUA e Reino Unido. Mas o que soava tão underground? Primeiro o som estava além de qualquer sectarismo estilístico – ia do techno e electro até house, garage e breakbeat, em faixas que apesar de dançantes, provocavam uma saudável sensação de estranheza. Nos dias seguintes me dediquei a uma audição mais atenta dos releases do selo no soundcloud e fiquei muito impressionado com a maioria das músicas – o destaque fica por conta de um EP split dos artistas 12&Bit e MANASYt, com tiragem limitada de 150 cópias e renda revertida para o Hospício MacMillian & St. Chritopher, não dá pra ser mais underground que isso!

O nome da festa – Hi Tek Soul – é uma corruptela do título do documentário High Tech Soul, que era como o DJ e produtor Derrick May definia o som criado em Detroit, um techno básico, mas cheio de soul, que definiu as estruturas de quase tudo que viria em seguida na música eletrônica de pista. E o nome da festa define bem os sets do residente Yonoid, com seu techno funkeado e cheio de groove. Quando Yonoid me encontrou foi logo avisando – estou cheio de vinis, mas estou tocando só discos novos! Purismo & Vanguarda, mistura essêncial do underground!

 O que mais me impressionou na noite, que acabou cedo, já que era um Happy Hour, foi a técnica e o ecletismo de ROKO, que como o inglês Moogz, também é DJ na web radio SUB FM. Poucas vezes vi alguem passear com tanta desenvoltura nas mixagens por tantos estilos. Com uma camiseta da banda Judas Priest, revelando a sua absoluta falta de preconceito com o rock, o finlandes ROKO mixou techno com electro, com breakbeat, com drum and bass, com hip hop, com algumas faixas pop que não conheço, passou por clássicos da dance e voltou ao techno obscuro. E o mais legal, ele parecia estar se divertindo como se fosse a primeira festa da vida dele, sendo que o cara é um veterano com passagem por clubs como Berghain e Tresor.

roko

A Hi Tek Soul acontece toda última quinta feira do mês, a partir das 18h. A próxima tá agendada para o dia 25 de Fevereiro e marca o aniversário do DJ Yonoid, além de trazer os convidados Reba e Magno Busatto. Vale uma checada nessa experiência underground de fim de tarde!

Niki Nixon

fotos por William Walker

Editado – Mostrei o link do post pro ROKO, que se revelou ainda mais eclético do que eu tinha imaginado! Muito acessível, me passou diversos links de seus outros projetos musicais, com destaque para o dark e experimental Gruth, o som de pista technoDIETER, além de mandar um link para os seus arquivos na SUB FM – segundo ele, ROKO é apenas para drunk party fun, mas seus trabalhos mais autorais sáo ainda mais versáteis! Pelo visto meu faro para underground continua apurado!

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