Prata da Casa – Orn

Idealizamos essa seção nova e fixa no site sem nenhum ufanismo condescendente. A produção de música eletrônica no Brasil sempre teve uma personalidade única sem precisar apelar para regionalismos. Isso vem desde o technopop dos Agentess, Kodiak Bachine e Azul 29 dos anos 80, passando por Habitants, Anvil FX, Xerxes, Cohen nos 90, talentos tipo exportação como Gui Boratto e Wrecked Machines e mais recentemente Akin Deckard, Seixlack, B-Mind, L_Cio e seus live P.A.s elaborados. A lista é enorme, na verdade. E será um prazer procurar todo mundo pra entrevistas curtas e prévias de seus novos trabalhos.

Eu já tinha a ideia da coluna Prata da Casa, mas ainda não tinha pensado em nenhum nome, quando descobri casualmente que o DJ Orn – que conheço há anos da cena house, mas que não imaginava que também era produtor – já tinha música lançada pelo selo Paunchy Cat do DJ Mauricio UM e mais uma  faixa engatilhada pra ser lançada pelo selo Rock Sucks do também DJ e produtor André Ribeiro. Sempre presto atenção no que o Orn tem a dizer sobre house porque foi ele quem me explicou que o tipo de som que eu curtia em festas poderia ser definido como “house torta” – e acreditem, achei o que procurava com esse conceito em foco. Na semana passada ele me mandou links para as suas produções e fiquei quase catatônico depois de algumas audições. Eu sabia o que esperar pelas suas seleções na discotecagem, mas não imaginava que o Orn tivesse tanto domínio do “clima” das músicas. Sobreposições precisas, preenchendo as frequências no espaço de maneira quase hipnótica. Chapei nas faixas e procurei Orn pra estrear a coluna – afinal, ele se encaixa bem no perfil de prata da casa, promovendo várias edições da festa Function na nosse torre favorita! No melhor estilo Trackers, aluguei o nosso amigo até poucas horas antes de se encaminhar para a maternidade, com a esposa e também DJ Debbie (e cabe aqui confessar qie gosto ainda mais dos sets dela, porque vão ainda mais fundo no underground).

Amalgama House

Journal – To ouvindo as suas faixas desde ontem, nao imaginava que eram tao boas! Muito sutis no desenvolvimento e na dinâmica das frequências.

Orn – Obrigado! Eu acho que tenho muito o que melhorar, mas já da pra ver uma evolução.

J – Como define o seu estilo?

O – Costumo dizer que faço e toco acid deep tech house. Ouvindo assim não quer dizer muita coisa, mas acredito que as vezes minha musica lembra o o deep e acid house de Chicago, outras vezes soa mais como o tech house inglês da década de 90. Tem mais a ver com as influências que recebi ao longo do meu relacionamento com a música eletrônica do que uma vontade própria de me enquadrar em um estilo, apesar de confessar que estudei bastante as musicas dos produtores clássicos de Chicago quando comecei a produzir.

J – E como anda essa cena de selos e festas em que você se enquadra?

O Hoje vemos alguns bons produtores brasileiros fazendo músicas do mesmo nível das músicas que vem de fora. Gosto muito das produções do Max Underson, do Rafael Moura, Lemes, Betek. Dos selos nacionais, vale ficar atento com o que sai pelo Paunchy Cat, Rock Sucks, Rainbow Socks, Tranzmitter Netlabel, entre outros.

É possível curtir quase todas semanas festas que apostam no House e Techno underground em São Paulo. Tenho a impressão que estão voltando a valorizar os DJs nacionais nos line ups ( talvez pelo alto valor do dólar) e que se formou na cidade um publico fiel e animado. Porem ainda vejo como insuficiente, provavelmente porque o publico fiel e animado é pequeno para o potencial da cidade e para o numero de bons artistas disponíveis no mercado.

J – Falando nesse potencial da cidade – A música eletrônica tá atingindo um público maior, muito na conta dos DJs de EDM e seus sets prontos nos grandes festivais, com hits sincronizados com labaredas de fogo e laser.. Isso lembra muito o grande questionamento dos anos 90 – “se o povo que fritava nas megaraves de psytrance um dia ia se ligar em estilos mais sofisticados do underground?” Na tua opinião, esses estilos bombadaços – tipo Big Room House, vão aproximar ou afastar ainda mais esse grande público do underground?

O – Acredito que pode aproximar do underground aquelas pessoas mais curiosas e interessadas em conhecer melhor o que há de bom na musica eletrônica. Porem a garotada hoje não tem a mesma relação com a música como tinham as pessoas das gerações anteriores. Antes havia uma segmentação mais rígida, então normalmente um fã de House saia apenas para ouvir House e sabia tudo sobre isso. A geração atual não se sente ligada a um gênero especifico. Talvez pela forma rápida que nasce um artista e que se esquece dele ou como se criam e morrem novas ondas. Há muita oferta de musica e as pessoas são bombardeadas por todo lado com informações muitas vezes extremamente superficiais. Não falo que eles abrem mão da qualidade, mas sim de conhecer mais profundamente um estilo. Um festival de musica eletrônica hoje disputa publico com um festival de rock, uma grande festa de hip hop, um show de MPB.

J – Concordo! O espirito da época atual valoriza interesses mais diversos e isso foi se relfetindo no som das festas. Falando nisso, você se imagina produzindo ou remixando algum outro estilo?

O – Sim, sonho com isso na verdade! Escuto muito HipHop, MPB, Rock e R&B. Procuro sempre aprender com as musicas que escuto e tento aplicar o que aprendo nas minhas produções. Sempre imagino uma batida 4 X 4 quando escuto um solo legal ou uma boa batucada. Gosto de artistas como Lusine e Mathew Herbert que já produziram ótimas musicas para as pistas e também faixas para escutar em casa, para cantar dirigindo ou para embalar romances. Já pensei nisso e adoraria produzir musicas de outros estilos. Gostaria de fazer coisas grandes, mas para isso preciso aprender muito, não só sobre produções como também aprofundar os meus conhecimentos em teoria musical.

Na cabine com Debbie – foto roubada do FB pessoal do Orn

J – Quais as suas ferramentas de produção?

O – Estou usando o Live com alguns plugins. Meu processo criativo funciona durante a madrugada, sempre partindo de uma linha de baixo ou um pad legal. Trabalho basicamente com o mouse e com um teclado midi. Evito samples e loops prontos, mas não tenho problemas de usa-los se a musica pedir.

J – Algun plugin VST favorito?

O – Fico horas brincando com o Phoscyon. Adoro o casamento de timbres ácidos e elásticos da TB.

J – Acho que já está ótimo! Muito obrigado! E me desculpe por te entrevistar na véspera de irem pra maternidade! Boa sorte pra voces! Qual o nome?

O – É uma menina e o nome dela é Bárbara. Como uma autentica filha de DJs crescerá cercada de boa música.

J – Classe! E espero sinceramente que possam em breve manter a família só com discotecagem & produção!

O – Seria lindo, mas não tenho certeza se queremos isso. Gosto de encarar a musica como uma paixão, um complemento. Talvez se precisasse dela para sobreviver a nossa relação não seria tão bacana.

É esse o espírito do underground! (Os pais já estão em casa, babando felizes na pequena Barbara!)

Niki Nixon

Preview – Drifting – em breve pelo selo Rock Sucks

 

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