Prata da Casa – Murray Richardson

No primeiro post de Prata da Casa eu expliquei que esta seria uma coluna de entrevistas com DJs e produtores brasileiros que tivessem alguma estória em comum com o Trackers. Por mais paradoxal que seja, para esta segunda entrevista, convidamos o escocês Murray Richardson, que consideramos mais como um dos diamantes da coroa que a prata da casa!

Conheci o Murray em alguma tarde de sábado ou domimgo surreal dos irmãos Colors, Wander A e Wagner J. Depois de algumas visitas ao Brasil, Murray se casou com uma brasileira e se mudou para o centro histórico de São Paulo, bem perto da nossa torre; sendo figura fácil tanto no balcão do bar quanto na cabine do DJ.

Murray já foi nosso gringo secreto numa das melhores edições da Mad Mondays e ainda trouxe o DJ Stuart Patterson para um back to back numa segunda de carnaval particularmente selvagem e insana. Fora a coragem highlander de quem é capaz de assumir uma pista que acabou de dançar 4 horas de Afrika Bambaata tocando techno e electro no aniversário de 8 anos do Trackers em plena manhã de terça feira!

murray e stuart na mad mondays

Murray Richardson & Stuart Patterson – Mad Mondays de Carnaval

Murray não precisou de muito tempo no Brasil, pra se tornar bem conhecido pelos sets de house e clássicos além da notável parceria com o DJ Renato Lopes, discotecando em dupla como Electrica Salsa. Mesmo com motivos de sobra pra considerar o Murray uma escolha inevitável para o Prata da Casa, esta entrevista é acima de tudo uma conversa de despedida – o escocês está de mudança para Lisboa.

Vamos sentir falta do conhecimento enciclopédico de faixas boas do Muzza! Eu sempre me senti em débito com ele, porque em 93 roubei uma fitinha cassete do Von Peter, com sets do Sasha gravados nas festas World Connection no Columbia de São Paulo e no Pachá de Campinas. Passei anos procurando as faixas desse set e o Murray me resumiu tudo em uma coletânea de 3 CDs do Renaissance!

E se tudo isso ainda não é o suficiente, foi o melhor DJ de punk rock a se apresentar no Garajão do Julião!

A entrevista foi em inglês, então espero que me perdoem por alguma mínima edição.

Journal – Voce começou discotecando rock ou house?

Murray – No! Bueno… A primeira coisa que me lembro de tocar… (longa pausa) a primeira coisa que me lembro era que a minha mãe tinha uma dessas malas, como um desses vanity cases (espécie de case para cosméticos) muito populares nos anos 70, que tinha um toca discos dentro.

J – Eu tive uma dessas! Era chamada de vitrola de pic nic, A saída era mono, só tinha um speaker na tampa.

M – Essa! A primeira coisa que me lembro é de tocar música nelas, colocar singles de 7 polegadas num pino e iam tocando um após o outro. Eu adorava, eram brilhantes!. E decidi guardar dinheiro para comprar meus próprios discos. A primeira vez que fui numa loja da Escócia pra comprar com meu dinheiro de bolso, tinha uns 9, 10 anos de idade e estava com esse amigo, Paul Stacey, fomos nessa loja, Speed Records, com essa figura de enormes cogumelos na entrada. Eles tinham essa lousa atrás do balcão, com o top 100 da parada de singles anotado, você podia comprar pelos números – eu escolhi dois números: Quero o 55 e o 72. O número 72 era Devo – Satisfaction.

J – Minha banda favorita na época!

M – E o número 55 era Rezillouz – I can´t stand my baby

J – Rezillouz! Escoceses também, fantásticos!

M – Isso foi uma coisa… influência da minha irmã, que é uns 5, 6 anos mais velha. Ela foi pra escola de arte, era meio “punky” e amava Rezillouz, mas pra mim… era o Devo!

J – Eu soube que você teve a chance de conhecer a banda pessoalmente!

M – Ah… (num tom quase triste) Isso foi bizarro pra caralho! Sabe o guitarrista deles que morreu no ano passado? Bob 2? Eu conheci a esposa dele há anos, completamente por acaso. Ela me viu com a camiseta da banda e perguntou se a gente ia pro show deles aquela noite.

J – Isso foi na Escócia?

M – Não, em Dublin! A coisa foi que o Devo tava fazendo a primeira tour na Europa em 17 anos! E eles iam tocar em Glasgow no dia 16 de junho. Eu corri pra contar pro meu melhor amigo, Kev – Fucking Devo vai tocar em Glasgow, dia 16! Ele ficou meio sem graça… – Oh, a gente não pode ir na porra do dia 16… por que eu caso! É o dia do meu casamento!

J – Não acredito!

M – Pior, eu era o padrinho, não podia deixar de ir também! Então fomos ver as outras datas da tour e falei com o outro padrinho que também amava Devo – eles vão tocar em Dublin três dias antes do casamento! Fomos todos pra lá! O fato é que quando a gente estava em Dublin, fui com o outro padrinho para uma loja de departamentos, para comprar o presente de casamento. Acabamos na seção feminina, vendo bikinis e toalhas de praia – foi quando veio essa mina – Vocês vão no show do Devo hoje? Meu marido é o Bob 2! E a gente tipo… o que? Você tá zoando… vem com a gente! E passamos a tarde toda conversando… sabe, eu ainda mantenho contato com ela! Quando tava voltando ela disse pra gente ir com ela pro Hotel conhecer a bandal Ficamos sem graça, mas ela insistiu e eventualmente eu tava entrando nesse quarto de hotel e encontrando o Mark (Mothersbaugh, tecladista e vocalista principal)  com o outro baterista, não era o Alan (Myers, que morreu em 2013).

J – Não era o Dave Kendricks, que tocou no Sparks?

M – Não, não lembro o nome dele… Então Barbara, a mulher do Bob 2, nos apresentou – Esses são meus amigos escoceses, passamos a tarde juntos e eles vão pro show esta noite! Eu olhei pro Mark e disse… Eu sou um DJ, tenho viajado o mundo pra tocar nos últimos 3 anos. E a única razão por eu ter começado isso, foi a sua música!

J – Uau! E ele?

M – Ele ficou me olhando e disse – Ah, é? Voce sabe que eu acabei de voltar do Japão, onde eu adotei esse pequeno bebê cego japonês? O cara é brilhante, tiramos uma foto juntos na hora!

 

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Com Mark Mothersbaugh do DEVO

J – E o show?

M – Foi mental, brilhante, cara! Já chegamos depois de um “double drop” cada um… era num pico antigo, tipo um estúdio, com palco grande. Depois ainda ganhamos um monte de presentes deles – camisetas da banda, tenho o shorts amarelo até hoje… cordas de guitarra! Devo é a minha banda favorita. Devo, Specials e The Clash.

J – Eu percebi que você tinha esse vínculo com o punk e a new wave pelos nome da sua festa, Rebel Waltz e des seus EPs pela 20:20, cada lado com um dos nomes de Dazed and Confused, Alive and Kicking

 

M – Rebel Waltz eu usei da primeira vez que fui discotecar e precisava de um nome para a festa. Peguei o álbum Sandinista

J – E achou o nome! Você começou a Rebel Waltz com o Stuart Paterson?

M – Não, na verdade eu comecei sozinho… É engraçado, sabe? Eu me mudei do Oeste da Escócia para a capital, Edinburgo e fiquei por lá uns 10 anos. E tinha esse bar, que é bem famoso por lá, o City Café, todo art deco na parte de cima e tinha um som no porão. .. enfim, era 1997 e o lugar tinha acabado de perder a licença, então eles tinham que fechar as 11 da noite. Depois de um fim de semana em que todo mundo ficou muito louco na festa, fui logo na segunda feira falar com a dona do lugar e ela disse que não ia dar pra fazer festas por um ano, que tinham acabado de perder a licença. Então eu falei, Ok, posso fazer a festa daqui a um ano, quando reabrir? Ela concordou, então esperei um ano e comecei a Rebel Waltz no porão. Eu quero dizer… não era nada! Mas ao mesmo tempo era “oh…wow!” Eu tocava sozinho. Então falei com a chefe que precisava de um um dinheiro para convidar uns DJs e ela me arrumou um orçamento de £ 200! Foi como eu chamei o Stu! Stuart tocou na Rebel Waltz como parte da tour do álbum Soulsonic, um monte de DJs tocou por lá. Pensando em retrospecto… em 1998, £ 200 era bastante dinheiro pra se tocar num bar!

Depois disso, o que me aconteceu de melhor foi… você conhece a Music Magazine?

 

J – Não me lembro. Acho que não.

M – É como a DJ Magazine, só que chama Music Magazine. E Eles tinham essa coisa que chamavam de bedroom dj contest. Acabei ganhando uma dessas competições e o set saiu encartado na revista. Era uma referência pra todo mundo, todos os clubs acompanhavam esses sets e convidavam os vencedores, foi grande pra mim.

J – E quem te bookou pro Brasil pela primeira vez?

M – É..Wander, Wagner! Eu queria tocar no Brasil, nunca tinha vindo. E tinha contato com esse cara, Marcos Guzman, que estava bookando DJs na época. Pedi pra ele me colocar em alguma noite do D-Edge, que era um club em que todo mundo estava tocando. Ele me disse… Com seu estilo de música, melhor você falar com esses caras que fazem a Colors. E me pôs em contato com os dois.

J – Algumas das suas faixas pela 20:20 soavam bem diferentes do seu estilo de discotecagem de hoje!

M – É… faz tempo! 2002

J – São intensas, com uma atmosfera sombria. Quais eram as suas influencias naquela época?

M – Primeiro preciso explicar que eu sou completamente shit com computadores! Eu tava discotecando numa noiite e um cara veio me entregar seu cartão depois de ouvir meu set. Perguntou se eu queria me envolver com produção, era o John Vick, da banda FiniTribe de Edinburgo.

J – Sei! Conheço uns sons deles. Bem trance e pop!.

M – Mas eram grandes, na cena industrial, antes, em 1984. Massivo! Em 1988 eles etouraram uma canção chamada De Testimony, que tinha uns sinos de igreja sampleados no começo da faixa, não sei se você lembra (não dá para reproduzir o Murray cantando o tema, siga o link!) mas isso não importa, quando eu conheci o John, ele já tava consagrado e topei fazer música com ele na hora. Ele tinha um estúdio…é um dos meus melhores amigos até hoje. Ele tá fazendo trilha para o Schrek agora! Só paramos de produzir porque me mudei de Edimburgo para a Espanha e depois para o Brasil, cada vez mais fucking longe de John!

J – Voce tá voltando a produzir?

M – Eu estou há um ano estudando a Maschine, com o Cubase e vou passar no estúdio do John, que hoje tá enorme, superprofissional… vou ficar por lá uma semana antes de ir para Lisboa. Quero voltar a fazer faixas logo. Nem sempre consigo me expressar, mas ele manja! Muito bom produtor!

Agradeci a entrevista e nos despedimos. Murray, tinha prometido há uns meses que ia deixar seu case com o set completo de CDs para a escola e achou o momento oportuno pra me entregar esse tesouro! Valeu, Muzza! Sucesso na nova fase, mate!

Niki Nixon

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