Bibliotracker – Capítulo 1 – The Ultimate Sound Tracker

O nome do nosso educandário foi escolhido por conta de uma paixão por um dos capítulos mais excitantes e obscuros da computação underground – os Trackers – um tipo de software de composição musical que revolucionou as trilhas dos videogames no computador Amiga Commodore e pouco depois a própria maneira de se compor música eletrônica.

Mas por que você nunca ouviu falar nesses programas, se foram tão influentes? A resposta é simples e tem tudo a ver com os mercados regionais de consoles para jogos! Nos anos 80 a cena de games no Brasil era quase um reflexo do que acontecia nos Estados Unidos e Japão. A Sega era representada pela Tec Toy que lançou por aqui o Master System e depois o Mega Drive, enquanto a Nintendo garantia a sua parte através da Playtronic, uma parceria da Estrela com a Gradiente que nos deu o Nintendinho 8 bit e mais tarde o SuperNes. Mas na Europa outra opção de console se tornou muito popular – os computadores Amiga da empresa Commodore, fundada nos anos 50 em Toronto por um imigrante polonês, ex-prisioneiro de Auschwitz, que fabricava máquinas de escrever portáteis e mais tarde calculadoras e computadores. O Amiga era muito avançado se comparado com os Macintoshes e IBM-PCs de sua época – já tinha mouse, interface gráfica colorida e quatro canais de áudio em 1985. Por canais de audio, entenda-se som dgital, como os arquivos .wav ou .mp3 – enquanto os videogames tradicionais usavam som sintetizado de chips específicos, hoje considerados charmosos pela tosqueira 8-bit e pelo saudosismo. Mas apesar de toda a personalidade e da memória afetiva que leva muita gente a amar os chiptunes até hoje, o fato é que era um som muito pobre!

 

Em 1987, uma pequena empresa alemã, chamada reLine Software encomendou um clone do clássico dos arcades Arkanoid, para o coder Guido Bartels, que “forçou” seu amigo Karsten Obarski, músico e programador amador, a produzir as trilhas para os mais de 40 estágios do game. Esses jogos eram vendidos em diskettes floppy de baixa densidade, ou seja, tinham pouco mais de 700Kb disponíveis para gráficos, programação e trilha sonora. Um sample de áudio curto, de 15 a 20 segundos, em 8 bit já ocupava todo esse espaço. Karsten, que tinha uma boa experiência de programação nos Commodore 64, que antecederam os Amigas, alem de uma coleção de sintetizadores que controlava via MIDI, resolveu o problema da capacidade reduzida dos diskettes, substituiundo as trilhas contínuas, por samples pequenos, que mudavam de pitch e modulação através de códigos em cada nota escrita. Assim, um único sample de 2 ou 3Kb poderia ser usado para todos os sons de um intrumento em todas as músicas. Esse era o princípio de composição dos sintetizadores baseados em samples CMI Fairlight, que hoje podem ser encontrados por até US$ 12.000 no e-Bay. Os detalhes de como um tracker funciona serão explicados em outras matérias dessa série BiblioTracker, mas neste capítulo inicial o destaque vai ficar para a revolução involuntária que Karsten promoveu com essa programação original.

 

Quando o Amegas, o tal clone de Arkanoid, finalmente foi lançado, a qualidade e a diversidade das trilhas sonoras deram mais o que falar na comunidade dos jogadores que o próprio jogo. Acontece que o Amiga não era apenas um console de videogames, mas um poderoso computador pessoal, programável com a acessível linguagem Arexx, então centenas de adolescentes curiosos hackearam o game e descobriram a estrutura de suas trilhas. Karsten lançou seu próprio software de composição, o Ultimate Sound Tracker, comercialmente, mas quase simultaneamente a comunidade hacker produziu dezenas de clones do programa original, com nomes como Star Trekker, Octamed, Fast Tracker, Fast Fucker (sério!) e  muitos outros. O próprio Karsten aprimorou seu software original numa versão nova chamada ProTracker  (o primeiro desses programas que usei – num Amiga 1200 sem HD!) – o único problema era o enorme ego dos adolescentes coders envolvidos, que faziam questão de criar formatos de arquivos que não fossem compatíveis com os dos outros trackers. Então se deu o Big Bang dos Trackers – surgiram dezenas de programas e extensões possíveis de arquivos a partir do formato .mod original (de music module), tais como .med .oct, .ahx, .far, .668, .srm, .xm, .s3m – e isso fez com que muita música fantástica desenvolvida em alguns desses trackers efêmeros se perdesse, sendo quase impossível encontrar trackers ou players compatíveis com todos os formatos. Mas foi uma época de intensa criatividade, tanto em composição quanto em programação.

 

 

As ondas de choque dessa explosão primordial dos Trackers se propagaram para além do domínio dos games em pouco tempo. A música eletrônica era inacessível para a maioria dos aspirantes à compositores. Sintetizadores e baterias eletrônicas ainda tinham preços proibitivos e os trackers tornaram possível que uma geração muito nova e criativa pudesse se expressar. Alguns estilos, como o hardcore original (hardcore gabber, não o punk hardcore) usavam trackers como sequenciadores (um bom exemplo é a essencial estréia em vinil do principal nome no estilo – o EP 3 Amigas de Neophyte) e outros, como o breakcore, devem a sua estética, exclusivamente aos códigos de efeitos dos trackers

O próprio Karsten era um compositor bem mais conservador que os seus seguidores – fã de Genesis, Queen e pop com vocais em geral, sempre se mostrou avesso ao techno e ao hip hop – o que de certa forma era ótimo, pois mostrou que até música erudita pode ser composta com os samples certos nesse tipo de programa  Alguns de seus mods estão disponíveis no site AMP – Amiga Music Preservation. Hoje Karsten está com 50 anos de idade, sumido da cena e mais interessado em sua coleção de motocicletas que em seus velhos sintetizadores e trackers, mas sem ele, a estória da música eletrônica teria sido muito diferente e certamente bem menos interessante.

Niki Nixon

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