Chá de fita com Stamina MC

Interrompemos qualquer outro post que estivesse na fila da produção para que eu possa compartilhar uma obsessão que tem consumido as minhas faculdades atentas nos últimos 5 dias – a descoberta do tesouro da juventude do jungle! No final da semana passada eu estava distraidamente folheando a Electronic Beats, quando me deparo com uma notinha casual dizendo que o Stamina MC havia liberado um link pra download de sua coleção de sets digitalizados a partir de cassetes ao longo dos 90! Fui checar só pra passar o tempo enquanto pesquisava outras pautas. Acabei encontrando a preciosidade de mais de 100 sets, gravados em festas históricas, só com a diretoria do jungle e D&B descendo a lenha enquanto o Stamina apavora com seus “Oh my gosh… rrrrolll the beats, rewind it , absolutely sinister!”

O Stamina é certamente o MC gringo mais conhecido dos brasileiros, pelos vocais no mega-hit de Xerxes e Marky em 2002 onde aparece muito afinado e de certa forma, contido. Mas aqui temos registros de um Stamina mais jovem, passeando por técnicas de rap, toast e raggamuffin, animando festas históricas e muitas vezes acompanhando as letras originais e samples das faixas mixadas pelos DJs.

O arquivo é sensacional! Tudo em ordem alfabética! E alguns diretórios trazem ainda o flyer da festa ou a capinha original do cassete – a maioria com a data da gravação registrada. Difícil escolher o que ouvir primeiro! Comecei pelos meus favoritos, todos que eu já tinha presenciado num set ao vivo – Zinc, Hype e Andy C, ícones máximos do Drum and Bass, e de cara a minha surpresa – eles já tocavam as primeiras faixas de Jungle em 93, 94, o que na verdade eu já sabia, mas nunca tinha ouvido um set desses caras que fosse anterior a 1998.

A festa Desire tem 8 diretórios com sets matadores e só pra destacar alguns dos melhores momentos, sugiro seguir o link da comemoração de seis anos da festa. Tem sets de Micky Finn, Jumpin Jack Frost, Andy C e um momento maravilhoso de Hype em começo de carreira apavorando num proto-jungle hardcore que inspirou o Stamina a soltar seu lado jamaicano com vocais inspirados e muito difíceis de acompanhar.

Melhor ainda foi descobrir o set em 4 partes de Randall no back to back com Slipmatt, precursor do happy hardcore, nesta época ainda se arriscando pouco fora do jungle clássico, mas com alguns elementos do hardcore rave, uns bumbos mais duros, faixas mais rápidas, isso tudo sem perder a base totalmente jamaicana. Não consegui enjoar, mesmo com alguns dos graves abafados pela gravação em tape.

As melhores gravações da festa, no quesito qualidade, estão no diretório do cassete “The Best Of Desire” lançamento comercial, provavelmente limpo e masterizado em estúdio. Tem o Slipmatt e o Hype descendo o braço nos toca-discos, mas também temos sets mais melódicos de Dougal e Fabio, que nunca tive a chance de conferir pessoalmente, mas era sempre citado como um dos DJs que redefiniu o estilo, pelos próprios ingleses que vieram tocar no auge do D&B no Brasil.

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Outro destaque é o grande número de sets da DJ Rap, a beldade de Singapura que ficou mais conhecida pelos hits melódicos e uplifting como Good to be Alive (na época eu toquei um remix do Deep Dish dessa faixa até furar o CD!) mandando o jungle mais primitivo e urgente que já ouvi num set. Só pedradas clássicas, com a mixagem virtuose que a consagrou como a melhor mulher DJ dos anos 90. Tem sets dela soltos em várias pastas das festas, vou destacar aqui um que me agradou mais pela seleção, numa Helter Skelter em dezembro de 93. Não imaginava que ela fosse tão veterana assim, nem que mandasse tão bem já no começo do jungle.

Os melhores registros são os que acabaram saindo em cassete comercial como compilações oficiais das próprias festas. Vale conferir alguns DJs menos conhecidos como Brock, Devious D. e Darren Jay tocando na Jungle Fever no distante Janeiro de 1994! Onde você estava em janeiro de 1994? Eu até conhecia a nova dance music, tinha alguma coisa de house e techno bem forte em São Paulo, mas jungle mesmo, só fui conhecer em 95, 96!

A chamada da Electronic Beats que me levou até esse arquivo histórico falava em download de centenas de cassetes de rave e jungle dos 90, mas quase todos os sets são puro jungle, já que a maioria traz o próprio Stamina como MC. As poucas exceções são curiosas e ainda mais raras no contexto histórico da cena! A festa Fantazia aparece em apenas dois diretórios – uma coletânea de house que incluí sets de Tony de Vit e algumas das primeiras experiências do ícone oitentista Boy George como DJ de house, com download direto do set de Jon of the Pleased Wimmin, uma DJ drag queen que teve pelo menos um hit com o produtor Pizzaman (ninguém menos que Norman Cook – o Fatboy Slim). Mas o que precisa ser conferido é o registro de uma edição gigante da Fantazia em Glasgow,  apropriadamente chamada de Big Bang com Carl Cox tocando um som quase inocente de hardcore rave com acid house. Devia agitar a pista loucamente, mas soa como trilha de videogame de “bater e andar” – sério! Tem um momento que me senti no estágio do club no Streets of Rage. Mas até aí, era novembro de 1993 e esse proto-hardcore rave era considerado o próximo passo da dance eletrônica.

Fantazia The Big Bang Carl Cox (Tape Pack Scan Front)

Como podem ver, o acervo de fitas cassete do Stamina tem set para meses de diversão e pesquisa, num registro muito preciso do que foi a cena jungle nos seus anos de glória. O jungle era um estilo diferente, embora encontrasse companhia nos sets de hardcore rave, por conta da velocidade, seu ritmo era único, um breakbeat comum do hip hop, acelerado a 170 BPM com violentas linhas sincopadas de baixo subsonico e os dois pés na Jamaica. Essa fase vida loka do jungle durou pouco tempo – o conceito de selva de pedra começou a ficar cada vez mais literal quando as festas estavam atraindo os nóias do crack e outros tipos mais outsiders. Dizem que foi por isso que os promoters passaram a anunciar o som como Drum & Bass (pessoalmente prefiro a versão de que foi a Bjork que cunhou o termo quando namorava o Goldie e disse que o som dele era só “baixo e bateria”) – mas a verdade é que o som mudou muito depois disso. Os graves deixaram de ser apenas mais um elemento ritmico e se transformaram na essencia do som, na tecnologia que diferenciava e definia o novo estilo. E de repente não tinha mais jungle, mas jump up, techstep, darkstep, liquid, jazzy, neurofunk e o que mais a cena inventasse para dividir e conquistar. Isso tornou o jungle tão datado e distante que as novas gerações das pistas nem imaginam do que se trata; e o estilo, quando é revisitado, passa por uma novidade “muito louca” –  seja por conta do future jungle  – as mesmas faixas desacelaradas nos 140 BPM em mixes de breakbeat, ou mais recentemente pelos sets de footwork, que encaixam fácil os jungles originais em seus 160 BPM. Acredito que a releitura é positiva, mas gosto de dar nomes aos bois! Isso é Jungle!

Niki Nixon

 

 

 

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